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quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Os sonhos ainda são nossos

Por Baptista Bastos, no jornal «negócios»
Desço por uma estrada antiga. De um e de outro lado, pinheiros, eucaliptos, árvores de cheiro, fetos, flores lindíssimas. De vez em quando, uma ave cruza o espaço. Um homem curvado numa carroça sobe a íngreme estrada. Saúda-me, tocando nas abas do chapéu, retribuo com um aceno largo. Passa uma camioneta de passageiros. Passa uma rapariga montada numa bicicleta. Passa a brisa, passa o rumor das coisas vivas, passa o silêncio brando a amigo, e eu sinto-me muito bem. Há muitos anos que assim me não sentia. Não direi em paz, mas um pouco apaziguado. As lutas têm sido muitas, carrego um pouco os males do mundo, muitos anos me percorreram, o que eu desejava não aconteceu, mas trabalho naquilo de que gosto e que escolhi. Sou feliz? Não o direi. Mas poucos homens chegaram tão perto.

Viro à direita, guio mais uns quilómetros e aí estou em Proença-a-Nova. A vila é muito limpa e extremamente acolhedora. É um fim de tarde, domingo, esplanadas cheias de gente que sorri e conversa. Vou a um café, o empregado diz-me um "bom dia", e permanece um instante a observar-me: "O senhor, por acaso, não é?..." Nomeia-me, digo que sou quem ele nomeou, então por aqui?, é a terra do meu sogro, não vinha cá há muitos anos.

Trago sempre um livro, sabe-se lá porquê, deve ser do ofício, mas já tenho os olhos muito cansados, um dia destes tenho de ir ao oftalmologista, e poucas páginas releio sem que as letras se não confundam. A idade é um privilégio, pelo menos chegámos até ela e muitos não a atingem. Ora, cá estou eu, preparo-me para folhear um dos mais belos livros da grande esquecida, Irene Lisboa, "O Pouco e o Muito", que quase todos os que se dizem cronistas e escrevem nos jornais deviam ler com minúcia e cuidado. É uma edição antiga, da Presença, com um estudo notável de Paulo Morão, que tem dedicado parte substancial da sua vida académica a estudar e a divulgar a extraordinária autora.

"A Mulher que vai à Porta" é o texto que começo a ler, neste volume que Irene Lisboa subtitulou de "Crónica Urbana", e estou muito contente por estar neste acolhedor café de Proença-a-Nova, e gosto de dizer que estou contente por aqui estar. Então, alguém me toca no ombro: "Tu, por aqui?", a surpresa amigável de quem gosta de me ver. Há que anos, há que anos.


Andávamos com os mesmos sonhos, por caminhos diferentes. O prestígio da palavra revolução animava as nossas juventudes. Conhecemo-nos precisamente em Proença, e as oposições de princípio não nos afastaram. Metíamo-nos um com o outro por causa daquilo que pensávamos, e mantínhamos a força de uma amizade que nenhuma divergência beliscava. Foi para a Suécia, casou-se, descasou-se, fomos sabendo um do outro alimentando a fogueira dos sonhos que só a juventude permite acalentar.


Anos depois, ele regressou a Proença. Agora lembrávamos, sorrindo, os castelos idealizados e nunca traídos. Aguinaldo, na clandestinidade o camarada Sancho. Diz-me: "Tens de comer uns maranhos cozinhados pela minha mulher." O maranho, especialidade da região, é cozido dentro do bucho da cabra, com carne do animal, presunto, chouriço, arroz, hortelã, vinho do lavrador, uma delícia inigualável. Come-se com acompanhamento de vinho branco do Monte Barbo, e quem não saboreou o prato ignora o sabor de uma grande iguaria.

quarta-feira, 13 de agosto de 2014

O fim da ética social

Por Baptista Bastos, no jornal «DN»
Todos os indícios no-lo dizem que vamos pagar, de viés ou a direito, o buraco de 5 mil milhões legado pelo BES. O dr. Salgado pagou, de presto, os 3 milhões de euros, caução para não ser engavetado; goza as delícias do verão na sumptuosa villa de Cascais; dizem as notícias que possui 200 milhões de dólares criteriosamente divididos em bancos do Oriente; e que vai envelhecer embalando doces memórias, enquanto os seus advogados delegam para as calendas o que a justiça tardará em dizer.
O parágrafo vai longo, mas como estas minudências dos tribunais, em Portugal, são tardas e longas, a justificação está feita. O primeiro--ministro, entretanto, com voz de tenor fanado, insiste em dizer-nos que não esportularemos um cêntimo pelos desmandos dos "privados". Bom: a impostura não tem pernas para correr. Os cerca de dois mil funcionários ameaçados de despedimento certo; as centenas ou milhares de investidores que vão ficar sem o dinheiro aplicado; a mistificação ultrajante entre o "banco mau" e o "banco bom", que ninguém sabe rigorosamente o que é, nem, sequer, o inteligentíssimo especialista da SIC, sr. Gomes Ferreira - tudo isto, e o mais que se desconhece, terá de ser pago por alguém, e todos sabemos por quem.

quarta-feira, 11 de junho de 2014

Caladinhos, faladores & as coisas por aí

Por Baptista Bastos, no jornal «negócios»
Passos Coelho, que gosta de dizer coisas sem demonstrar grande preocupação com a verdade, afirmou, na "cimeira" com Rajoy, que deseja criar estabilidade e confiança, admitindo, de forma subjacente, o que, até agora, não conseguiu. Nada do que Passos diz me interessa, nem sequer mediocremente. Ele é um tipo sem palavra, que mantém, com o embuste e a mentira, uma relação entranhadamente doentia. E fá-lo com a amorosa cumplicidade do dr. Cavaco, certamente o pior Presidente da República que tivemos, incluindo o almirante Thomaz.
Vivemos submersos num oceano caótico e imoral. E é bom que o repitamos sem descanso. Assim o faço e farei, enquanto estes diligentes velhacos por aí andarem.
Na mesma ordem de ideias, o conflito que Passos alimenta com o Tribunal Constitucional atingiu as raias do obsceno. Ele e os seus sabem muito bem (ou, então, são burros) o que de inconstitucional apõem nos documentos orçamentais. Fazem-no porque ou jogam com a ideia de que o caso, ou os casos podem passar, ou desejam mesmo o confronto institucional, desgastante e vil. Inclino-me para esta última hipótese. Agora, ante a evidência dos factos, reafirmados por constitucionalistas respeitados, a rapaziada decidiu pedir a "aclaração" dos acórdãos. Nada disto é para ser levado a sério: mas, entretanto, Passos ganha tempo para cometer as piores prevaricações.
A base social de apoio da Coligação está notoriamente esvaziada, como as últimas eleições o provaram. E a própria natureza dos resultados exigia que o dr. Cavaco anunciasse eleições antecipadas. Mas este homem desasado e estranho pertence a outra estirpe, que não possui o timbre do cavalheirismo. Mantém-se calado e ignaro, e quando o faz, só diz disparates e tolices.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Os entusiasmos alvares

"A dívida ou as dívidas ficaram em suspenso, quer dizer: a render juros, aliás, vultosos, que os Governos que se seguem a este terão de pagar. O júbilo de Marques Mendes é caricato por excessivo e tolo."

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

Cuidado com o que estão a fazer, cuidado!

Por Baptista Bastos, no Jornal «negócios»
 
Somos colocados perante os factos consumados, numa bruma de situações que beneficia, muitas vezes, não se sabe quem. Nós é que não. O "Público" revelou, ante o espanto dos indígenas, que as devidas contrapartidas do negócio dos submarinos foram saldadas com a reconversão de um velho hotel no Algarve. Ao que parece há 490 milhões de euros em falta. Um novo contrato anulou o anterior, e tudo ficou em águas de bacalhau.

Assistimos, quase diariamente, a assuntos desta natureza, ou semelhantes, que dão azo a que pensemos em trafulhices e no aumento do descrédito das pessoas e das instituições. O Orçamento foi aprovado sob uma onda de protestos e do mal-estar das próprias bancadas da coligação. A procissão ainda não saiu do templo, e lá vem o ministro Gaspar a revelar que os "riscos e as incertezas" do documento são grandes e imponderáveis. Adicione-se, a estas balbúrdias, o caso, escabroso, da visão, pela polícia (qual polícia?), das filmagens da última manifestação da CGTP, e o quadro de sombras e de equívocos da actual sociedade portuguesa atinge as zonas do insuportável.

Pior do que tudo, os casos em si, que se acumulam uns sobre os outros, é a aparente indiferença com que assistimos a estes imbróglios. As contas que o Governo nos presta são evasivas ou, pura e simplesmente, inexistentes, e a violência contida no Orçamento, sem precedentes na nossa história recente, está a causar, não apenas a indignação generalizada, como rupturas graves na coligação, e em elementos que lhe são próprios. Bagão Félix, por exemplo, serviu-se de linguagem extremamente violenta para cauterizar o documento, e o Governo. Disse da sua inconstitucionalidade, da necessidade da intervenção do Presidente da República e declarou: "É fácil ser corajoso com os mais fracos." Aliás, o antigo ministro das Finanças tem sido muito crítico relativamente às decisões governamentais, alertando para a crispação social, que pode conduzir a situações irreparáveis.

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A fala de Zacarias Guinote

Por Baptista Bastos, no Jornal «negócios»

Converso com Zacarias Guinote, neste fim de tarde. Zacarias Guinote é um velho tipógrafo, sábio, culto e sensato, que, no fascismo, se meteu em embrulhadas políticas. Foi preso, torturado e nunca desistiu. Leitor dos grandes clássicos do anarquismo mantém-se fiel aos ideais da "nova aurora." O rosto é um belo rosto enrugado. Um rosto claro e nítido, direi agora, emoldurado por longos cabelos brancos. Às vezes, parece-me que estou em frente de José Gomes Ferreira, o poeta, claro! Trabalhei com ele em jornais, o último dos quais o "Diário Popular", e gosto muito deste senhor altivo e altaneiro, quase nonagenário, sorridente e firme.

Diz-me: já atentaste bem nas caras deles? Nada têm que ver com as nossas caras. São caras de comida cheia, de boas camas e de boas vidas. Nunca decorei os nomes dos governantes, a não ser o do Vasco Gonçalves, homem de bem, e de quase todos os capitães de Abril. Depois, desisti. Eram caras iguais, nomes iguais. Gente sem sonhos e sem a grandeza que os sonhos conferem. Sabes aquela frase atribuída ao Bertoldt Brecht?, "Os homens são feitos da mesma matéria de que são feitos os sonhos." É uma boa frase porque corresponde à verdade. Tudo o que o homem faz para melhorar a condição humana, parte do sonho.

Estava a revelar-te que não fixei a maioria dos nomes dos que nos governaram. Mas conservei os de estes; e até consegui, através dos jornais e das revistas, retratos deles. Quero marcá-los e às suas indignidades. As indignidades estão afixadas nos rostos deles, já de si uma indignidade pegada.

terça-feira, 6 de novembro de 2012

A visita da velha senhora

Por Baptista Bastos, no Jornal «negócios»

Um comovido alvoroço perpassa pelos sectores da direita, com a vinda a Portugal da senhora Merkel, que vem ver como "se passam as coisas." Diz-se que se preparam manifestações adequadas aos níveis de ressentimento de pessoas e grupos. Há que reflectir, porém, que a velha senhora é, apenas, o factótum de uma política que se generalizou, e tem muito a ver com a queda do Muro e a subsequente ascensão do capitalismo em rédea solta. É curioso e trágico verificar que as previsões de Gunter Grass, tenaz opositor, entre outros, da "reunificação", por calcular os perigos daí advenientes, estejam a cumprir-se. Grass preocupava-se com a recomposição da "Grande Alemanha", atendendo às características de um povo historicamente ressentido.

A Alemanha do pós-guerra beneficiou do apoio norte-americano, mas também europeu, em larga medida sustentado, ideologicamente, pela "ameaça comunista." Há um livro, "EUA e União Soviética", do jornalista e historiador Guilherme Olympio, que relata a esquizofrenia do povo americano, habilmente inculcada e alimentada por técnicos de manipulação. Nesse período, coincidente com o da "caça às bruxas", do senador MacCarthy, o pavor instalado era de tal ordem que, praticamente, não havia casa, nos Estados Unidos, sem dispor de um abrigo antiatómico!

A esmagadora maioria das pessoas tem, da Alemanha, um preconceito de desconfiança e, simultaneamente, de respeito pela qualidade de um povo que cultiva o rigor e a disciplina - por vezes exagerados, seja dito em abono da verdade. Viajei, muitíssimas vezes, pelas duas Alemanhas, quando as havia. E devo confessar que lamento, profundamente, não saber alemão, apenas para ler Goethe no original. Os meus sentimentos, como os da minha geração, relativamente ao país e ao povo, foram sempre uma mistura de admiração e de preocupada simpatia. Li os grandes clássicos e os contemporâneos mais significativos, e tenho preocupado, em vão, saber mais do que as emoções revelam e as observações explicam. Difícil, reconheço-o.

segunda-feira, 15 de outubro de 2012

Este governo existe?

Por Baptista Bastos, no Jornal «negócios»


Desde que há democracia nunca nenhum Governo foi tão cercado, criticado, vilipendiado como este. Nos últimos dias, então, alguns dos mais representativos "senadores" têm manifestado posições extremamente veementes. Ramalho Eanes, Eduardo Catroga, Ângelo Correia, António Vitorino são alguns daqueles que revelam um grande desconforto com o rumo do País. Para não falar no violento artigo de Mário Soares, publicado no "Diário de Notícias" de terça-feira última, que constitui um implacável e justo requisitório contra o Executivo. Além dos movimentos populares e cívicos, demonstrativos de que a inércia das populações é, apenas, aparente.

A Convenção das Alternativas de Esquerda foi outra das indicações de que a sociedade portuguesa está inquieta. Duas mil pessoas reuniram-se e expuseram razões e problemas. Alguns preopinantes da direita mais protozoária estremeceram, irados e confusos. Um deles, que tem aviltado o nome dos pais e de um tio-avô, de quem contrabandeou os apelidos, atinge o paroxismo da infâmia. Gente desta, de idêntica estirpe e igual calibre, sempre apareceu e sempre foi acolhida por uma Imprensa desacreditada e desacreditante. Mas o cavalheiro em questão ultrapassa todas as medidas e tolerâncias. Ainda por cima, não está a perceber nada do que se passa. E o que se passa é o avolumar de uma particular consciência cívica, resultado de um vazio perigoso, a que, lamentavelmente, os partidos não têm conseguido dar resposta.

As televisões entretêm-se a solicitar os serviços de comentadores do óbvio, que não suscitam a reflexão porque se limitam a relatar notícias com mais ou menos adjectivos janotas. Ou, então, produzem programas ditos de humor, que só servem para desviar atenções, quando as há. A "independência" não existe, e quando alguém me diz que é "imparcial" fujo a sete pés.´

Há "comentadores" serenos, plácidos, esganiçados e gesticulantes. Não servem para nada. E, em quase todos eles, esconde-se uma solidão desguarnecida, como a daquela senhora de meia idade, feiota, pequenota e pintadota, desprovida de graça e de grandeza, que se transformou no centro de devastadoras anedotas e se serve dos locais onde junta uns dinheiros para ocultar o seu próprio passado e injuriar quem lhe não reconhece qualquer atributo de sedução. Faz pena assistir ao triste envelhecimento de uma pessoa que nunca foi jovem, e que o deseja ser a todo o custo. Inclusive com o uso desabusado de cores no cabelo. Pena, pena.

quarta-feira, 29 de agosto de 2012

O ventríloquo

Por Baptista Bastos,no jornal «DN» 

 O país que pensa assistiu, entre o perplexo e o estarrecido, às declarações do sr. António Borges a Judite Sousa, na TVI. Perplexo porque viu um assessor substituir o Governo numa entrevista importante. Estarrecido pela frieza gélida com que o senhorito falou no extermínio do serviço público de informação, em troca de coisa alguma. A certa altura da extraordinária conversa, o sr. Borges, impávido e sereno, disse que a questão dos despedimentos previsíveis diria respeito ao novo "operador" logo que a RTP e a RDP fossem desmanteladas. O Governo lavava dali as mãos. Só um tolo admitiria que o preopinante falava com voz própria. Ele mais não era do que o eco, à sorrelfa, de Miguel Relvas, dissimulado nos bastidores pelas públicas razões conhecidas.
Há algo de desprezível na conduta moral de quem se serve de um outro para dizer o que, no momento, não está interessado em afirmar; e de repugnante, naquele que se substitui com a cara, a voz e a ideia. Ambos se equivalem e ambos são a imagem restituída da baderna a que chegámos.
A esta farsa não estará alheio o primeiro-ministro. Não passa pela cabeça de ninguém que o enredo foi montado sem o seu conhecimento. De qualquer das formas, ele terá de esclarecer o assunto. O sr. Borges, ao falar, como falou, assertivo e veemente, da privatização da RTP e da RDP, do que vai mudar e do que vai ser concessionado; dos funcionários que a entidade "compradora" entenderá, ou não, estarem a mais; da extinção absoluta do serviço público e da sua eventual entrega a interesses estrangeiros - disse-o com conhecimento de causa e no registo comum a um governante.
Este desvio do discurso cultural e político transforma-se num apelo ao desmantelamento dos percursos habituais das nossas heranças. Além da gravidade da proposta, e da natureza agressiva do seu conteúdo, que tende a subalternizar a própria democracia, parece-me insultuoso que seja um estranho ao Governo a dar notícia dos factos. E a pôr em causa, com displicente indiferença, a vida de quase duas mil pessoas.
As atitudes deste Executivo têm dissolvido o pouco que nos restava de orgulho nacional. Nenhuma neutralidade pode arbitrar estas pequenas infâmias. E são-no porque o desdém demonstrado pelos governantes parece querer criar as suas próprias razões.
A mística do neoliberalismo, perante um mundo sem pátria e de pensamento único, tem como objectivo o domínio pela obediência, pela submissão e pelo medo. O papel do sr. António Borges é o de um factotum desprovido de toda a singularidade. Em causa estão a grande crise de valores de que enferma a nossa época e a supremacia da finança sobre a diversidade civilizacional. Alegremente, caminhamos para o desconhecido, sabendo-se, de antemão, pelo que resulta da experiência, a configuração da catástrofe.

terça-feira, 3 de julho de 2012

Resistir é uma forma de combater

Por Baptista Bastos, no Jornal « negócios» de dia 29

A mentira, a evasiva, a ambiguidade tornaram-se vulgaridades no discurso político. O primeiro-ministro diz que não vai haver mais austeridade, no caso de. O ministro Gaspar assevera que austeridade nem pensar, a não ser que. A falta de clareza, a esquiva, a meia-palavra. Todos sabemos que uma nova dose de desgraça vai ser aplicada à população portuguesa. Se a democracia é o governo do povo pelo povo e para o povo, esta não passa de um equívoco. O governo actual possui uma mesma entidade orgânica e todos os seus membros são responsáveis por uma política de subserviência e de desrespeito pelas regras mais elementares de ética e de civilidade. Há uma dimensão totalitária que já não escapa. O poder informe do executivo caracteriza-se pela obediência cega aos ditames que provêm de fora.

Chega a ser indecoroso as maneiras subalternas e mesureiras com que Pedro Passos Coelho ciranda em redor da senhora Merkel. Diz um amigo meu: "Ainda se ela fosse uma estampa de mulher…". Não desejo entrar em pormenores desta natureza, mas lá que o meu amigo tem razão, lá isso. Não tenhamos dúvida de que o projecto ideológico dos alemães comporta algo de imperial. E essa grande rábula de que é aquele povo que sustenta a Europa, em especial os grandes madraços do sul, é uma arquitectura político-económica destinada a enganar papalvos.
A Alemanha - como já, neste jornal e em outros, a manobra tem sido divulgada - precisa deste movimento circular para fazer escoar os seus produtos. Somos-lhe devedores de quê?

terça-feira, 19 de junho de 2012

"O que se busca é uma via"

Por Baptista Bastos, no Jornal« negócios » do passado dia 15


Estou a revisitar os livros de André Malraux. Tenho de admitir, hoje, que a minha geração foi injusta e cáustica para o imenso escritor. O factor político determinou (sem explicar) o sentimento crítico. Tudo, agora, parece obsoleto. Aquela época foi fértil em contradições e a virulência saiu das baias morais e intelectuais para se transformar num ódio lamacento. As coisas talvez tivessem acalmado e os ajustes começaram. Tive grandes discussões com companheiros e camaradas meus. Líamos tudo e tudo contrariávamos. Possuo uma biblioteca imensa, porque aqueles tempos não permitiam atrasos. E tive a sorte de conviver com os maiores escritores, actores, artistas e cineastas portugueses da época. A idade da formação e do cimentar das convicções ética e ideológicas foi aí.

Os meus adversários na altura liam os mesmos livros que eu. O conceito de conhecimento não se coaduna com exclusões. Do comunista Aragon ao fascista Robert Brasilach, de Knut Hamsun a Ernst Junger, passando pelos grandes americanos, e, naturalmente, pela leitura da Bíblia, tudo passou pela minha curiosidade ardente. Sou um produto dessa gente toda. E de António Vieira, sempre folheado com mão diurna e mão nocturna. E mais do Camilo do que do Eça, devo dizê-lo.

A solidariedade e a fraternidade não estavam desempregadas. E o niilismo parecia estar removido para sempre. Não estava. O regresso do niilismo manifesta-se todos os dias e acentua os nossos pesares. Não importa se continuo na mesma luta; na mesma, não: em luta semelhante. Mas tenho pena de que as coisas estejam como estão. O abandono da grandeza de espírito, o esquecimento do grande monumento à humanidade e erguido pela humanidade, o desprezo pelas emoções e pela compaixão doem, e doem profundamente. Mas creio que nem tudo está perdido, apesar de assistir ao desespero dos mais novos e à negligência de muitos dos mais velhos.

segunda-feira, 11 de junho de 2012

Que é isso de "democracia partilhada"?

Por Baptista Bastos, no passado dia 8 no Jornal «negócios»


Cada vez se percebe menos o significado exacto dos discursos do Dr. Pedro Passos Coelho. Agora, numa magna reunião qualquer, confessou uma doce esperança, na "democracia partilhada." Partilhada como, com quem e com quê? Com os bancos, com a troika, com a senhora Merkel, com aqueles cujo rosto desconhecemos? O português não precisa de ser medianamente letrado para recusar esta "partilha." E, apesar da propaganda do Governo, já não admite, acrítico e resignado, a falácia do que lhe é dito.

As coisas ainda não se moveram o suficiente para que extraiamos conclusões. Porém, as últimas sondagens são de molde a fazer reflectir alguns e a alimentar noutros uma réstia de esperança. Não podemos continuar a assistir ao vexame de o primeiro-ministro de Portugal se comportar como um subalterno abjecto da chanceler alemã. Ao seguir-lhe o passo e ao apoiá-la, em decisões gravíssimas, como a rejeição das euro-obrigações, contrariando Hollande, Monti, Rajoy, Juncker e instituições respeitáveis, Passos Coelho pareceu um servil trintanário.

O homem anda muito mal avisado, e sugiro ao meu velho amigo Luís Fontoura, lido, reflectido e sábio, que lhe indique uns livros e o persuada a dar a volta, ao arrepio desses "conselheiros", certamente inimigos, que o empurram para a fossa. De contrário, estamos todos tramados.

segunda-feira, 28 de maio de 2012

Isto vai de mal a pior e a orquestra continua a tocar

Por Baptista Bastos, no jornal «negócios» do passado dia 25


O Conselho de Finanças Públicas diz que não devemos voltar aos "mercados" em 2013. À frente desta instituição está uma considerada economista, a prof.ª Teodora Cardoso, que, sem alvoroço mas com firmeza, nos adverte da gravidade da situação. O Governo diz que não: está tudo no "bom caminho" e não há razões para nos inquietarmos. Não que não há. A OCDE, por seu turno, informa que Portugal tem de pedir mais dinheiro emprestado. O Governo tenta apaziguar os ânimos e tranquilizar-nos com um discurso tonto, que contraria tudo aquilo proveniente de estudos e de pessoas qualificadas.

Não há clareza no que diz o Executivo. Tudo o que diz o Executivo é nebuloso, contraditório, um processo de negação das evidências, que começa a assustar mais do que os sustos diários embutidos por esta gente. Vai-se sabendo, perante os factos e as circunstâncias, que a perturbação política e a barafunda mental dos governantes atinge aspectos medonhos.

terça-feira, 17 de abril de 2012

As palavras do banqueiro

Por Baptista Bastos, no  « negócios online»


"Portugal está a trabalhar bem para cumprir os seus objectivos", disse o banqueiro Ricardo Salgado, com aquele ar assustador que o distingue. É um elogio ou o sinal de que somos a obediência em estado puro? A verdade é que sempre trabalhámos bem, muitas horas, cabisbaixos e tristes, não somos culpados deste infortúnio que nos caiu em cima, e pagamos uma culpa irremediável. Trabalhamos bem. Diz o banqueiro. E ele e os outros, têm trabalhado bem?

A pergunta modesta e singela tem razão de ser. Que têm feito pela pátria, ele e os outros? Que objectivos perseguem senão aqueles dimanados pelo lucro? Nada destas questões assentam num primarismo tonto. Correspondem a uma verdade como punhos. Eles enriquecem com o nosso dinheiro, quando cometem disparates têm sempre o respaldo do Governo, e, ainda por cima, atrevem-se a ditar sentenças. Sei, claro que sei e sabemos, que a Banca é um dos pilares do capitalismo, e que o capitalismo, ao contrário do socialismo, não promete nada, e muito menos a felicidade dos povos. Mas deixá-lo à solta, é arriscadíssimo. Tem-se visto.
A crise por que atravessamos não tem merecido, dos banqueiros, um esforço aturado de análise. E se, entre 1929 e agora, a crise possui semelhanças que têm sido escamoteadas, as causas são sempre as mesmas, porventura mais ou menos graves. Por sua vez, os políticos, esta geração de políticos, não sabe o que fazer. E a Europa está nas mãos de uma Direita tão anacrónica como incompetente.

Os senhores da Europa assenhorearam-se do mando porque são mais fortes, dispõem de dinheiro, de informação e de poder. Mais ainda: arregimentam Governos servis, de cega obediência, que mais não são do que serventuários de interesses alheios. O Governo português não foge à regra: é um arregimentado, sem personalidade própria, seguidor de uma estratégia imperial bicéfala. Mas não será a França a detentora absoluta do poder. Chegará a altura que ela própria sofrerá as consequências da megalomania.

O discurso clássico sobre a bondade da economia moral não passa de uma facécia. A economia vive de si mesma, e o pretendido equilíbrio geral que provoca é o equilíbrio instável do momento. Marx esclareceu. E se alguns preopinantes desenfreados entendem Marx como um pensador ultrapassado, ignoram que a relação económica imposta sem regras conduz ao descalabro. Como nos aconteceu esta desgraça?, perguntam as pessoas que mais sofrem a crise. Acontece que o mundo e os homens se transformaram em cobaias ou mercadorias, e introduzidos como engrenagens de uma roda infernal.

segunda-feira, 19 de março de 2012

A mentira, a manipulação e o preconceito

Por Baptista Bastos, no Jornal «negócios»


Num programa diário de televisão foram ouvir transeuntes comuns. Este tipo de declarações vale o que vale, já sei, mas lá que vale alguma coisa, vale. Perguntava-se às pessoas se já haviam sentido a crise. Registou-se uma unanimidade concludente. O português médio anda atordoado com os impostos, com as taxas moderadoras, com o aumento de tudo o que é indispensável ao viver corriqueiro. Agora, está a cortar na alimentação. Uma professora revelou que come um exíguo pequeno-almoço, uma segunda refeição tardia e, à noite, nicles!, um chá "para aquecer o estômago."

A história dramática daquela professora não é, infelizmente, única. E é bom que repitamos, para governo nosso e memória futura, estes factos que estão, lenta e cruelmente, a corroer o que a nação possui de mais importante: o povo. Quem tem acesso à comunicação geral não pode, nem deve escamotear a realidade nem calar a voz das suas indignações. A tendência para a banalização dos acontecimentos encontra sempre respaldo no silêncio ou na negligência dos "media."

No mesmo programa a que me refiro, uma outra senhora, que disse ser funcionária pública, e estar, "diariamente, a contar os tostões para tentar sobreviver", não escondeu o desespero e a revolta ao afirmar: "Não sei o que nos está a acontecer. Dizem que gastámos acima das nossas possibilidades! Mentira, mentira! Nunca dei por isso. Sempre tive pouco dinheiro. Agora, estou a pagar por uma crise que não provoquei, e nem sequer sei do que se trata." Estas expressões tornaram-se vulgares. E, de facto, ninguém explica o que, rigorosamente, aconteceu, para que Portugal e outros países europeus sejam culpados de crimes que não cometeram, e os seus povos esmagados pelo peso de um pagamento de que não são credores.