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domingo, 15 de novembro de 2015

Votar até ganhar?

Por Carvalho da Silva no jornal «JN»

Quem imaginaria Portugal, neste final de 2015, numa situação política com a Direita acicatando a luta de classes, utilizando o terrorismo verbal, desenvolvendo um fortíssimo ataque ao regime democrático-constitucional e instabilizando a sociedade?
As eleições de 4 de outubro foram, sem dúvida, de enorme importância e alcance. Podemos orgulhar-nos como povo: quando o bloqueio e a subjugação eram apresentados como inevitáveis para o nosso futuro próximo, com enorme serenidade e consciência, os portugueses usaram a arma do voto e abriram portas para novos caminhos. A Direita não lhes perdoa. Para a Direita, o povo, que tinha sido por eles convocado a sofrer por ter cometido o pecado de "viver acima das suas possibilidades", deve agora ser obrigado a votar tantas vezes quantas as necessárias - tenha isso os custos que tiver - para corrigir o "erro" de não lhes ter dado a maioria absoluta.
Os portugueses têm naturais receios de novas doses de austeridade, sabem que os tempos que vivemos exigem rigor e honestidade (valores que os poderosos espezinham todos os dias), mas não abdicam de sonhar e buscar caminhos de futuro. A resistência dos últimos anos não foi em vão e propiciou muitos ensinamentos, felizmente interpretados com grande sentido de responsabilidade e coragem pelos partidos políticos à Esquerda, perante os resultados eleitorais obtidos. Como vai projetar-se no futuro este facto não sabemos, mas o início da caminhada é bom.

segunda-feira, 9 de junho de 2014

Um estrebuchar chantagista

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»
Anda por aí muita malvadez à solta e forte cheiro a chantagem política. O Governo e as forças que o sustentam desencadearam ostensivamente um ataque ao Tribunal Constitucional que visa transformar a Constituição da República em letra morta. A tentativa de humilhação pública do Tribunal e de subversão da Constituição tem um nome: golpe constitucional.
O ataque sustenta-se em quatro pilares: i) uma campanha de intimidação do povo português, apoiada nos fortes condicionalismos impostos à nossa vida pessoal e coletiva; ii) uma intervenção "cuidadosa" do presidente da República que, numa mal disfarçada cumplicidade com a maioria, ora atua na forma de distraído ora na de "moita-carrasco"; iii) utilização de fatores externos de pressão, desde logo a invocação constante das "sensibilidades" dos mercados e as ameaças de diversa ordem, incluindo a de um ainda maior empobrecimento, feitas pela Comissão Europeia; iv) aproveitamento da fragilidade e das contradições em que está mergulhado o Partido Socialista, e também das dificuldades da Esquerda em utilizar, de forma articulada e ofensiva, a sua significativa representação e capacidade de ação.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O revolucionarismo da direita

"...Precisamos de mudança, sim! De derrotar este revolucionarismo, desmascarando as suas mentiras e traições. Precisamos de dar sentido a palavras como igualdade, justiça, reforma, progresso, trabalho, emprego, liberdade, democracia. Precisamos de inverter as prioridades enquanto é tempo."

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Destruição duradoura

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

É com estas duas palavras que o Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), classifica os traços mais marcantes comuns aos orçamentos do Estado (OE) dos anos 2011, 2012 e 2013, quando analisa os previsíveis impactos do OE apresentado pelo Governo para o próximo ano.
O OE para 2014 não pode ser analisado isolando-o da experiência concreta que temos vivido. É preciso um exercício de memória, neste caso muito recente, para observar o sentido e o alcance das políticas que vêm sendo seguidas, os seus efeitos reais e as continuidades ou ruturas que nos são propostas. Só com esta base de análise se pode obter, com alguma segurança, projeções para o futuro.
Ora, segundo o estudo dos economistas do CES que trabalharam o 7.o Barómetro daquele Observatório, "os resultados da experiência destes três anos são claros: (i) os 6 mil milhões a menos que hoje temos no défice conduziram a 7,5 mil milhões a menos no PIB, ou seja, por cada euro retirado ao défice, tirou--se 1,25 euros ao PIB; (ii) os 6 mil milhões a menos no défice significaram 52 mil milhões a mais na dívida pública, ou seja, por cada euro retirado ao défice, a dívida aumentou 8,67 euros".

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Até onde Portugal resiste?

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

O Portugal Democrático, mesmo com uma democracia esfarrapada e empobrecida, sobreviverá às políticas neoliberais e retrógradas que estão a ser impostas, como e por quanto tempo? Nos últimos dias, a partir de uma estimativa rápida (a ser revista) do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB), desencadeou-se, pela enésima vez desde 2008, a ideia de que a recessão económica está a ser ultrapassada e que agora é que é: "estamos a sair da crise".
Até hoje todos os anúncios deste tipo, feitos a partir de indicadores conjunturais lidos parcelarmente e distanciados de uma abordagem sólida de tudo o que marca a situação da economia e das pessoas, apenas serviram para limitar os protestos populares, para secundarizar reflexões e propostas estruturadas, para o prosseguimento de políticas desastrosas que têm conduzido o país a uma situação cada vez pior. Desta vez, a ladainha de que vale a pena os sacrifícios e de que é preciso continuá-los e aprofundá-los foi de imediato retomada e está a servir a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e dos reformados, desde logo na Administração Pública, os ataques ao ensino público, ao sistema de segurança social e ao setor da saúde.
As previsões do INE mostram-nos que a ocasional interrupção da recessão, no último trimestre, foi talvez resultado de três causas: estarmos a ter um bom ano de turismo provocado por fatores externos e instabilidades em destinos alternativos; aumento pontual das exportações, designadamente, em resultado da entrada em funcionamento de uma unidade da Galp em Sines; impacto positivo das decisões do Tribunal Constitucional que evitaram algumas medidas de austeridade.

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Afinal o que é a crise?

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

Para o presidente da República (PR), uma crise política assumidamente grave, para a qual propôs como primeira hipótese de solução um "Acordo de Salvação Nacional", deixou de existir desde que, por manobras internas, da União Europeia e da troika e por malabarismos seus, garantiu a permanência da direita que integra e promove no poder, nele mantendo e reforçando a sociedade portuguesa (lusa e não só) de negócios.

Ficou assegurado, por agora, que os credores podem continuar a espremer-nos, que se vão manter abertas as torneiras dos cofres do Estado que alimentam as swaps e outras negociatas, que os processos de privatização dos CTT, da Caixa Geral de Depósitos e de algumas "miudezas" públicas que ainda nos restam, serão acelerados. Será aumentado o desemprego, a destruição de pequenas empresas prosseguirá enquanto surgirão folgas significativas para os grandes grupos, a dimensão social do Estado continuará a enfraquecer-se.

Ao mesmo tempo o PR agiu, ardilosamente, de forma a acentuar o descrédito no exercício democrático da política e distanciou o povo do direito de intervir para discutir e decidir, em tempo útil, sobre o seu futuro. Este PR parece disposto a fazer tudo o que estiver ao seu alcance para que o povo conduza a água a moinho errado.

Cavaco Silva não quer entendimentos dos partidos para se sair destas desastrosas políticas que vêm sendo prosseguidas. Os entendimentos que reclama são para submeter os portugueses e o país. É por tudo isto que o atual PR - que afinal é ator bem ativo da governação e até inventou uma nova forma de Governo de iniciativa presidencial - significa um dos maiores desastres políticos da nossa democracia.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Podem votar mas decidir não

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

O presidente da República (PR), na sua comunicação ao país na passada quarta-feira, entre contradições, excessos e insuficiências que preencheram o seu discurso, colocou aos portugueses um cenário de gestão da grave situação em que o país se encontra, que passa pela perspetiva de lhes conceder a possibilidade de usarem o seu voto em eleições a realizar no prazo aproximado de um ano, mas assegurando previamente que esse voto já não tenha capacidade de escolha.
Na conceção do PR, a realização de eleições daqui a um ano tem como pressuposto que os partidos do atual Governo, mais o Partido Socialista (PS), concluam previamente "um compromisso de salvação nacional", com alcance muito para além da data das eleições.
O Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) são partidos que têm, como os outros, o direito e o dever de construir alternativas, de pretenderem ser maioria e de governarem. Ao excluí-los do cenário, que conteúdos de debate, que programas eleitorais e de Governo está o PR a propor aos portugueses como passíveis de escolha? Que conceção de democracia é esta? O que faria este PR se, até formal e institucionalmente, os portugueses lhe dissessem que discordam dele?
Nesta forma (democrática?), de inspiração presidencial, antes do exercício do voto já existiria um resultado garantido: um programa de governação na base do prolongamento da austeridade, com Portugal prosseguindo na sua condição de país ocupado.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Eleições e alternativa

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Acabe-se com o enxovalho! Não podem prosseguir as humilhações que vêm sendo feitas ao povo, à República Portuguesa, ao regime democrático que tanto sacrifício exigiu para ser conquistado. Quem não se dá ao respeito não é respeitado! Quem não assume a verdade dos factos com que lida sujeita-se a que outros o humilhem e o submetam, exatamente pelo conteúdo das mentiras.
O governo da Sr.ª Merkel afirmou há dois dias, sobre a situação política portuguesa, "o caminho é difícil mas é o único que garante o sucesso". Isto é um insulto ao povo português, só possível porque o nosso governo faz da mentira um instrumento de governação para subjugar a sociedade portuguesa.
De que sucesso fala esta gente?
Do empobrecimento generalizado, da destruição de empresas e do Estado Social, do brutal agravamento do desemprego, cujo número total de desempregados é hoje superior em mais de 330 mil às "previsões" da troika, da recessão económica que é umas quantas vezes maior do que aquilo que nos haviam dito que ia acontecer, da emigração forçada de milhares e milhares de jovens qualificados?
Deitemos mão das aprendizagens feitas no nosso longo e rico percurso histórico como povo e como nação, das nossas capacidades, recursos e valores. Discutamos com serenidade e seriedade os desafios e os sacrifícios a assumir, mas com a certeza de que é um futuro digno que encetamos.
O apodrecimento do governo PSD/CDS contamina perigosamente toda a sociedade, põe em causa os valores da política, da democracia, da soberania do país.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um insulto

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

Vi e revi o programa da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) "Sexta às 9", emitido no passado dia 24 e senti-me indignado. Nele foi apresentada uma pretensa investigação sobre o sindicalismo na Administração Pública (AP) que, com tristeza, classifico de insulto ao sindicalismo e à democracia.
Tenho plena consciência do indispensável papel daquele canal público de televisão. A RTP vive tempos difíceis, sob fortes ataques e perante complexos desafios que merecem atos de solidariedade de todos os que defendem o regime democrático. Mas nem estes factos, nem o respeito profundo que tenho pelos seus jornalistas e outros profissionais me desviam da acusação àquele programa.
A dado passo e depois de referências a lutas sindicais em curso, designadamente a uma possível "paralisação geral da AP", afirmou-se: "No meio deste turbilhão contestatário, há uma realidade que nunca tinha sido investigada". Vê-se o programa e o que se descobre? A repetição, pela enésima vez, de que há dirigentes sindicais a mais na AP. Fazendo a contabilidade do total de dirigentes a tempo inteiro e atribuindo-lhes um salário bruto médio de 1500 euros (será?), concluem que custam "6,5 milhões de euros aos contribuintes". Este valor é idêntico ao que recebe meia dúzia de gestores de topo de grandes empresas - pessoas com mérito - que se alimentam de negócios chorudos com o Estado.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Espremam-se os velhos

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»


Espremam-se os velhos" - os de agora e os do futuro - parece ser a palavra de ordem do Governo, quando observamos as políticas que concretizam a nova vaga de austeridade.
Os cortes nas pensões e o aumento dos impostos e outros encargos sobre os reformados e pensionistas já vêm sendo efetuados desde o início das políticas de austeridade e empobrecimento, mas agora trata-se de um ataque muito direto e violento.
Tudo o que foi até aqui anunciado como conjuntural e passageiro fixa-se como definitivo e o futuro é fortemente constrangido.
A criação de emprego devidamente remunerado e com direitos, a valorização do tempo do não trabalho, de direitos sociais fundamentais que se universalizaram, a afirmação do Estado social, os avanços tecnológicos e científicos em múltiplas áreas e, desde logo, na medicina, contribuíram para essa conquista extraordinária do aumento da esperança de vida. Quando nas nossas sociedades há a justa expetativa de se viver mais anos e com mais saúde, este capitalismo neoliberal e selvagem impõe políticas que consideram tudo isto um luxo.
Em Portugal, a redução do valor médio das pensões vem sendo progressiva em resultado das reformas adotadas em 2001 e 2007 e, apesar do aumento de idosos que se projeta para o futuro, segundo um estudo da Comissão Europeia que o Governo cita no Documento de Estratégia Orçamental, o peso da despesa com pensões no PIB não deverá crescer mais que 0,2 pontos percentuais entre 2010 e 2060. Porquê, então, este ataque?

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Carvalho da Silva "Portas está a preparar futuro fora de Governo moribundo"

"Paulo Portas põe a claro a fragilidade do Governo. Só num país em que o Presidente da República deixou de exercer as funções que devia desempenhar, em nome dos portugueses, podemos assistir a uma cena destas, de vir o primeiro-ministro fazer uma comunicação e, a seguir, um dos seus ministro pronunciar-se e fazer apreciações sobre o que aceita e não aceita", lamentou o sociólogo.

segunda-feira, 29 de abril de 2013

1.º de Maio: trabalho, liberdade, dignidade

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Marcos históricos na vida das nossas sociedades, como o 25 de Abril de 1974 ou o 1 de Maio, são vividos com a emoção que advém da memória dos grandes acontecimentos, ainda que não vividos, das conquistas de direitos e liberdades que sustentaram as nossas vidas enquanto trabalhadores, pessoas e cidadãos.
Em muitos portugueses e portuguesas hoje essa emoção tende a esbater-se perante a realidade vivida quotidianamente, perante os danos do austeritarismo que coloca mais de 20% dos trabalhadores portugueses no desemprego, que inferniza a vida no trabalho, na família e na sociedade, que condena à pobreza. A convivência com os nossos mais próximos amargura-nos a esperança de um futuro que faça jus às lutas do passado. Nuvens pesadas carregam a vida do nosso amigo, familiar ou vizinho; amanhã o que impede que seja a nossa?
Esta frustração e desânimo são inevitáveis perante as loucuras da avalanche de políticas ruinosas de um governo que traiu o povo e o país, perante a atuação do presidente da República que desgraçadamente sanciona essas políticas, perante instâncias europeias e internacionais que nos querem sugar até ao limite das nossas forças. Atiram-nos para um modo de viver que vorazmente abraça o imediato, o agora sem saída. Ora, dias como o 1.o de Maio, em que recordamos o que de melhor nos identifica como um povo, como projeto civilizacional, conferem fundo histórico à nossa existência.
Com Abril e Maio o que foi conseguido foi mais que a liberdade de expressão, de reunião, de organização sindical e política. Foi mais do que o direito a escolher livremente os governantes. Abril e Maio trouxeram muito mais. Trouxeram liberdade a sério: saúde, educação, habitação, dignidade no trabalho, cidadania, independência e soberania para os portugueses e para outros povos que a ditadura subjugava.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O consenso da desgraça

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

"Consenso" é a nova palavra mágica para a "salvação nacional". O ministro Poiares Maduro, académico chegado ao Governo há poucos dias, repetiu a palavra "consenso" 12 vezes na conferência de Imprensa da passada quinta-feira.
Passos Coelho é chamado pela troika e pelo presidente da República a reunir com o secretário-geral do Partido Socialista (PS) para procurar construir compromissos e consenso. Alguns grandes empresários e banqueiros, com Ricardo Salgado à cabeça afirmam, "com sentido de Estado", a necessidade de consenso. Ferreira de Oliveira, em defesa do consenso cita um grande poeta, para convocar a emergência da "ética da responsabilidade sobre a ideologia".
A RTP coloca a palavra consenso a encher o ecrã. Não há deputado "responsável" da Direita que não reclame consenso. Muitos dos principais programas das rádios e televisões debatem afanosamente o "necessário consenso".
Paulo Portas, em nome do consenso namora o Partido Socialista (PS), procurando engajá-lo para o imediato. E, com forte "sentido de Estado", defendendo "o interesse nacional", vai tentando assegurar presença no poder para o futuro. Algumas "personalidades" do PS respondem com encantamento, na perspetiva de poder estar ali a muleta para se guindarem à governação.
Aliás, no PS vária gente, incluindo ex-ministros de Sócrates - com discursos em contramão face ao que diz atualmente o seu ex-chefe - mostra gostar muito desse consenso. Uma sua ex-ministra defendia há dois dias, num programa de rádio, que é preciso "substituir a ideologia pelo pragmatismo". Acordem! Nós estamos mesmo perante grandes problemas. Não há soluções com as políticas que nos conduziram ao descalabro.
Os denominadores comuns e compromissos indispensáveis para construir respostas a uma situação dramática, como a que o país vive, exigem identificação e exposição de programas e valores. Há que confrontar as ideologias que marcam a vida e o funcionamento das sociedades.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O que o país não merece

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Já poucos têm a coragem de chamar ajuda aos empréstimos da troika. Estes empréstimos significaram apenas uma nova dívida que serviu para pagar encargos e parte da dívida velha, tornando-a ainda maior. Foram presentes envenenados. A "ajuda" consubstanciou-se em brutal austeridade que deixou os portugueses mais pobres e em piores condições, até para poderem vir a pagar a dívida.
No fim de 2007 cerca de 70% da dívida pública portuguesa era detida por bancos e outros credores não residentes, isto é, externos. Em meados de 2012 os credores externos detinham já apenas cerca de 20%. Entretanto a dívida aos credores oficiais (Fundos da União Europeia, FMI e BCE) passou de zero para cerca de 40%. Isto significa, tão-somente, que quem nos "ajudou" se tornou no principal credor.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O "fim de festa"

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Nos últimos tempos é bem visível um frenesim do Governo na implementação de contra-reformas em várias áreas. Assiste-se a um apodrecimento acelerado da governação que se mistura com expressões de desagregação da situação política, em resultado da imposição, no plano nacional e europeu, de políticas injustas, criminosas numa perspetiva de desenvolvimento das sociedades.
Tomo aqui o exemplo da atuação do ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato. Quem acompanhou o seu percurso é conduzido a perguntar: este senhor ensandeceu?
Nesta semana disse, sorridente, que o exame do 4.º ano do Ensino Básico (antiga 4.ª classe), feito em outra escola, ou na sede do agrupamento escolar respetivo, com acompanhamento de professores desconhecidos, "não é pressão nenhuma" para as crianças. E acrescentou "qual o problema de um aluno estar numa escola e fazer uma prova noutra?".
Uma das recordações de maior sofrimento da minha infância é a da prestação de provas na 4.ª classe. Vêm-me à memória o medo do contexto em que estava, os nervos num espaço com imensos fatores desconhecidos. Levantar-me mais cedo para percorrer os quilómetros que distanciavam a escola da minha aldeia daquela onde fui fazer o exame, aqueles professores vistos por mim como "autoridade" nova e pretensamente mais exigente, o receio de falhar apesar de ser bom aluno, a incompatibilidade da roupa nova que os meus pais compraram para esse dia e as dores provocadas pelas botas novas depois da longa e demorada caminhada.
Esse tempo está longe, mas Crato, na sua modernidade, é para aí que nos quer encaminhar, ao colocar de novo os alunos num ambiente estranho e alheio ao do seu quotidiano, obrigando muitas crianças a grandes deslocações. Tenho uma filha, aluna numa excelente escola pública, que por certo fará o exame com êxito, mas revolta-me os pressupostos de que as crianças não dão importância e sentido de responsabilidade aos testes e provas do mesmo tipo que vão fazendo durante os anos e em particular neste, revolta-me a grande suspeita sobre a competência, a ética e a deontologia profissional dos docentes destes alunos, para além de constatar que a criação de todo um cenário bacoco, pretensamente ligado à evolução da qualidade do ensino e das aprendizagens, pouco ou nada terá de verdade. Será que isto é um pequeno contributo para no futuro se impor bem cedo um ensino dualista e elitista?
Ainda deste ministério veio, também estes dias, a confirmação de que os professores vão ser sujeitos à aplicação da mobilidade especial, facto que mostra que o ministro andou a mentir e que os professores vão ser indignamente tratados.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cegueira e insensatez

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Passos Coelho ao afirmar, em plena Assembleia da República, que "aumentar o salário mínimo geraria mais desemprego neste momento", pôs a nu toda a dimensão de cegueira neoliberal, de incompetência e de disparate que marca o rumo e as práticas da sua governação. Mas é dramático que isto seja assumido como uma estratégia, confirmada, aliás, pelas afirmações de António Borges dois dias depois.
A brutal e injusta austeridade faz sofrer as pessoas, mas parece que também cega e estupidifica quem as impõe.
A afirmação do primeiro-ministro (PM) situa-se para além dos limites do bom senso e da decência política. É caso para lhe dizer: abre os olhos, obcecado! Não vês a queda da procura? Não vês a situação das empresas? Não vês a vida concreta das pessoas?
O problema de fundo é que estamos perante alguém que não cumpre os requisitos mínimos para se manter nas funções efetivas de primeiro-ministro de Portugal. Passos Coelho chegou a PM através de um ato eleitoral, isso é um facto, mas ele não governa de acordo com os compromissos que assumiu e não é um intérprete fiável dos interesses dos portugueses. Comporta-se simplesmente como executor das medidas que vão traçando os tecnocratas indigitados pelos nossos credores e agiotas (incluindo os Borges), com vista a explorar, até ao limite, o povo português.
Infelizmente, pelo menos três gerações de portugueses - aquelas que hoje sofrem com este desastroso rumo - vão dolorosamente lembrar-se por muito tempo deste roubo organizado, com dimensões externas e internas, feito ao seu país. E vão recordar-se das traições que estes governantes de ocasião e da mentira cometeram.

terça-feira, 26 de fevereiro de 2013

Um governo para Portugal


Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»



Não se justificam hesitações e adiamentos. Precisamos rapidamente de derrotar as políticas em curso e o atual Governo, de uma consulta responsabilizadora dos portugueses em eleições e da formação de um governo democrático que assuma a governação de Portugal ao serviço dos interesses do país e do seu povo. Às forças e personalidades de Esquerda, mas também a todos os democratas e cidadãos progressistas, coloca-se a obrigação de cumprir este objetivo.
Se os indivíduos que nos "governam" - Passos Coelho, Gaspar, Portas, Barroso, Olli Rehn, Lagarde, Merkel, e todo o seu séquito de comparsas e lacaios - fossem avaliados pelos critérios do "mérito" e da "obtenção de resultados", há muito deviam ter sido despedidos por participação em roubos organizados e exploração gritante dos povos.
No que a Portugal diz respeito, por que esperamos?
Um quarto dos portugueses está no desemprego ou com atividade que não dá para sobreviver, a dívida pública já vai em 122,5% do PIB, a recessão e o desemprego vão agravar-se, as empresas e as atividades privadas e públicas continuarão a ser destruídas e, se nada for feito, em 2015 estaremos a contabilizar a saída, em 6 anos, de 400 000 jovens do país. É a sobrevivência de Portugal e a viabilidade do seu desenvolvimento futuro que estão em causa.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2012

Estado social e desenvolvimento



Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»


O Estado social e o trabalho são hoje o alvo estratégico das políticas de austeridade impulsionadas pela troika e pelo Governo PSD/CDS e respaldadas numa União Europeia (UE) capturada por ideologias e práticas neoliberais. À "inevitabilidade" da redução dos salários e da degradação das relações de trabalho juntam agora a "inevitabilidade" da destruição do Estado social, que querem reduzir a um Estado assistencialista de serviços mínimos.

Vítor Gaspar disse que os portugueses devem decidir se querem mais Estado do que aquele que estão dispostos a pagar e Passos Coelho falou de "refundação" do Estado, quando já haviam acordado com a troika o corte na despesa, em 4 mil milhões de euros. São atos vergonhosos e de desonestidade política.

Em Portugal, como na generalidade dos países europeus e outros, o progresso das sociedades e a consagração de valores democráticos tiveram na afirmação do valor e dignidade do trabalho e dos direitos sociais os seus dois fundamentais ancoradouros.

terça-feira, 4 de dezembro de 2012

Governo perverso

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»


É isso mesmo! O Governo PSD/CDS, atuando de forma subversiva face ao regime constitucional, pratica uma governação insurrecional profundamente retrógrada e com marcas de fascismo social bem visíveis. É uma violenta contrarrevolução desencadeada a partir do exercício do poder.

Se for ganhando terreno o apelo feito ao povo, para que este aguente os sacrifícios acreditando que depois os problemas se vão resolver, podemos caminhar, inevitavelmente, num rumo de aniquilação da democracia. O seu preocupante empobrecimento já é hoje um facto.

Passos Coelho e a sua equipa governam abertamente contra a Constituição da República (CR), adotam medidas para as quais não estão mandatados, fazem e vão executando políticas absolutamente contrárias aos compromissos que assumiram.

A coberto de mentirosas inevitabilidades e de uma emergência financeira cuja gravidade vai aprofundando, o Governo destrói a economia, entrega a grandes interesses capitalistas estrangeiros e nacionais os nossos recursos e setores estratégicos, e impõe escolhas de regime político que subvertem o Estado de Direito e a sua lei fundamental.

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Alívio sem ilusões

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Vivemos num tempo em que as eleições em outros países, sobretudo quando se trata de grandes potências, não nos são indiferentes. Não votamos nos EUA ou na Alemanha ou no Brasil, mas é como se o fizéssemos. Por vezes temos mesmo os "nossos" candidatos e os "nossos" adversários nesses países.
Nos EUA existe um sistema bipartidário onde é quase impossível surgirem verdadeiras alternativas. As que existem são forçadas a tentar fazer caminho por entre as estreitas fissuras do sistema político, ou a quebrar hegemonias dentro de um dos grandes partidos - o democrático. Os que conseguem, ou parecem consegui-lo, cedo tendem a desiludir-nos. Foi o caso de Obama no seu primeiro mandato. Ficou muito aquém das esperanças que suscitou. Teve de enfrentar a crise financeira, mas não foi capaz de impedir que o sistema financeiro rapidamente se recompusesse do susto e que, no plano global, fizesse da crise uma oportunidade para desencadear uma nova ofensiva agora dirigida contra os estados, atingindo particularmente os do Sul da Europa.
Por isso mesmo nestas eleições americanas Obama era, para muitos homens e mulheres progressistas, apenas o que se opunha ao mal maior. Entretanto, na noite de terça para quarta-feira respirámos fundo e saiu-nos um "uff, Obama ganhou".
Mitt Romney, um daqueles políticos em relação aos quais é difícil perceber como é possível as pessoas confiarem nele, era o candidato da austeridade à americana: do discurso contra o Estado; do deixem os mais ricos enriquecer indefinidamente, não lhes perguntem o que fazem aos seus milhões; da defesa pacóvia do "mérito"; do consintam todos os privilégios que permitem a quem mais tem e pode colocar com toda a liberdade os seus rendimentos em paraísos isentos de impostos.