Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»
Nos últimos tempos é bem visível um frenesim do Governo na implementação de contra-reformas em várias áreas. Assiste-se a um apodrecimento acelerado da governação que se mistura com expressões de desagregação da situação política, em resultado da imposição, no plano nacional e europeu, de políticas injustas, criminosas numa perspetiva de desenvolvimento das sociedades.
Tomo aqui o exemplo da atuação do ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato. Quem acompanhou o seu percurso é conduzido a perguntar: este senhor ensandeceu?
Nesta semana disse, sorridente, que o exame do 4.º ano do Ensino Básico (antiga 4.ª classe), feito em outra escola, ou na sede do agrupamento escolar respetivo, com acompanhamento de professores desconhecidos, "não é pressão nenhuma" para as crianças. E acrescentou "qual o problema de um aluno estar numa escola e fazer uma prova noutra?".
Uma das recordações de maior sofrimento da minha infância é a da prestação de provas na 4.ª classe. Vêm-me à memória o medo do contexto em que estava, os nervos num espaço com imensos fatores desconhecidos. Levantar-me mais cedo para percorrer os quilómetros que distanciavam a escola da minha aldeia daquela onde fui fazer o exame, aqueles professores vistos por mim como "autoridade" nova e pretensamente mais exigente, o receio de falhar apesar de ser bom aluno, a incompatibilidade da roupa nova que os meus pais compraram para esse dia e as dores provocadas pelas botas novas depois da longa e demorada caminhada.
Esse tempo está longe, mas Crato, na sua modernidade, é para aí que nos quer encaminhar, ao colocar de novo os alunos num ambiente estranho e alheio ao do seu quotidiano, obrigando muitas crianças a grandes deslocações. Tenho uma filha, aluna numa excelente escola pública, que por certo fará o exame com êxito, mas revolta-me os pressupostos de que as crianças não dão importância e sentido de responsabilidade aos testes e provas do mesmo tipo que vão fazendo durante os anos e em particular neste, revolta-me a grande suspeita sobre a competência, a ética e a deontologia profissional dos docentes destes alunos, para além de constatar que a criação de todo um cenário bacoco, pretensamente ligado à evolução da qualidade do ensino e das aprendizagens, pouco ou nada terá de verdade. Será que isto é um pequeno contributo para no futuro se impor bem cedo um ensino dualista e elitista?
Ainda deste ministério veio, também estes dias, a confirmação de que os professores vão ser sujeitos à aplicação da mobilidade especial, facto que mostra que o ministro andou a mentir e que os professores vão ser indignamente tratados.