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segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Quo vadis, PS?

Por Rui Sá no «JN»
Estas eleições tiveram o mérito de destruir (será que foi de vez?) uma falsidade que inquinava o processo eleitoral democrático: o de que as eleições legislativas "elegiam" o primeiro-ministro.
De facto, e mesmo sem se saber como isto vai terminar, fica claro que nas legislativas se elegem deputados e estes, de acordo com os resultados, é que têm a responsabilidade de ratificar, ou não, o primeiro-ministro indigitado pelo presidente da República.
Perante este facto a Direita, mas também alguns do PS, insistem na mentira, na esperança de que, sendo esta repetida mil vezes, se transforme em verdade. Daí a invenção de que quem "fica à frente" deve governar, dando mais importância a esse facto do que à vontade democraticamente expressa, dado que a maioria dos eleitores optou por não caucionar maioritariamente os que "ficaram à frente". Não tardará muito e proporão, tal como acontece na Grécia, um bónus de mais uns quantos deputados àqueles que ficam em primeiro lugar, de forma a, artificialmente, garantirem maiorias absolutas quando o povo não as deseja atribuir (ao mesmo tempo que declaram, com pompa e circunstância, que "o povo tem sempre razão"...).

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

A cassete

Por Rui Sá, no jornal «JN»
Hoje, tenho de pedir desculpa às leitoras e aos leitores, mas tenho de dar um cunho (ainda) mais pessoal a esta crónica. Porque a vou basear em factos que se passaram comigo há alguns anos, mas que demonstram que, apesar de tudo, há facetas da história que se repetem.
Na sequência das eleições autárquicas de 2001, na Câmara do Porto viveu-se uma situação curiosa. A coligação PSD/CDS ganhou as eleições, com seis eleitos, tantos quantos os eleitos pelo PS. A CDU, por seu turno, elegeu-me como vereador. Nas autarquias, ao contrário do que acontece nas eleições nacionais, o presidente da Câmara é o cidadão que encabeça a lista mais votada, tendo ou não maioria absoluta. O que significou que o presidente da Câmara eleito foi Rui Rio. Perante esta situação, Rui Rio propôs que o vereador da CDU assumisse um pelouro. O que a CDU aceitou, estabelecendo como condições a necessária relevância desse pelouro (no caso, ficou o Ambiente, a Reforma Administrativa e a presidência dos SMAS) e a disponibilização de meios técnicos, humanos e financeiros que permitissem realizar um trabalho positivo. Por último, que não em ordem de importância, que o vereador da CDU manteria a sua total independência e fidelidade ao programa político que tinha apresentado aos eleitores - uma situação muito diferente da que se vive atualmente, onde o PS, para aceitar pelouros para parte dos seus eleitos, se comprometeu, por escrito, a cumprir o programa do presidente da Câmara.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

Gostei de ler

E que tal se penhorassem um rim?

A notícia surgiu na Comunicação Social, e parece tudo menos "moderada": a partir de Setembro, quem não pagar taxa moderadora pelos serviços prestados no SNS, será penhorado.
Esqueçam o grande crime económico que todas as semanas vem a lume, à vista de toda a gente; não se perca tempo com o desvio de milhões que repetidamente lesa o país e os contribuintes. Doravante, o Governo vai concentrar esforços em diligentemente esmagar quem verdadeiramente anda a lesar o país - os doentes - que, como se já não bastasse darem despesa porque não há meio de morrerem, ainda ficam a dever quantias tão insustentáveis quanto 10 euros.
A purga começará em Guimarães - de "onde houve nome Portugal" - mas rapidamente descerá, reino abaixo, qual cruzada contra os mouros. E - à semelhança dos despojos de Cristo, avidamente repartidos pelos romanos - o pecúlio a extorquir já está destinado pelos carrascos: 40% da coima irá para o Estado; 35% para a Administração Central do Sistema de Saúde (ah!, a omnipresente ACSS); e 25% para as Finanças. Eu tive o cuidado de somar as parcelas e, sim, dá mesmo 100%, não sobra migalha sobre o calvário. Oxalá não se lancem às notas com tanta ganância que as rasguem, como vestes.
Mas voltemos um pouco atrás para tentar compreender melhor a notícia, pode ser? Aparentemente, honrados concidadãos, temos entre nós uma raça de gente que, insistindo em recorrer ao SNS, seja para consultas de rotina, seja de urgência, seja até (imagine-se!) para ficarem internados, têm o topete de, sistematicamente, entre um vómito e uma tontura - no seu perfeito estado de saúde, portanto - fugir sem pagar a taxa que se destina a "moderar" o seu acesso - por favor não confundam com dupla tributação - isto depois de beneficiarem de serviços de cada vez melhor qualidade.

terça-feira, 12 de agosto de 2014

Contentores: será moda, negócio ou incompetência?

Diz-nos a notícia do «JN»que três contentores servem de cozinha ao hospital da Guarda sem o mínimo dos requisitos exigidos por lei.

Vamos sendo, cada vez mais, um país onde quase tudo é precário, ilegal e de aspecto miserável, com cheiro a fraude e sabor a hipocrisia.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Capas de jornais (70)



Com as vidínhas em modo Copa do Brasil, Selecção Nacional, manjericos, sardinhas, e de fim-de-semana prolongado para alguns, eis que, o JN trás à capa a informação  que o desgoverno deste País ainda não foi embora e a "bucha"  vai continuar dura para a maioria dos portugueses.

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Revolta da Marinha Grande

Por Pedro Bacelar de Vasconcelos, no jornal «JN»


Completam-se amanhã 80 anos sobre a insurreição dos operários da Marinha Grande que, em 18 de janeiro de 1934, cortaram as comunicações, ocuparam a estação dos Correios, prenderam o destacamento local da Guarda Nacional Republicana e elegeram um "conselho operário" que assumiu o governo da vila.

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

O revolucionarismo da direita

"...Precisamos de mudança, sim! De derrotar este revolucionarismo, desmascarando as suas mentiras e traições. Precisamos de dar sentido a palavras como igualdade, justiça, reforma, progresso, trabalho, emprego, liberdade, democracia. Precisamos de inverter as prioridades enquanto é tempo."

segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Destruição duradoura

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

É com estas duas palavras que o Observatório sobre Crises e Alternativas, do Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra (CES), classifica os traços mais marcantes comuns aos orçamentos do Estado (OE) dos anos 2011, 2012 e 2013, quando analisa os previsíveis impactos do OE apresentado pelo Governo para o próximo ano.
O OE para 2014 não pode ser analisado isolando-o da experiência concreta que temos vivido. É preciso um exercício de memória, neste caso muito recente, para observar o sentido e o alcance das políticas que vêm sendo seguidas, os seus efeitos reais e as continuidades ou ruturas que nos são propostas. Só com esta base de análise se pode obter, com alguma segurança, projeções para o futuro.
Ora, segundo o estudo dos economistas do CES que trabalharam o 7.o Barómetro daquele Observatório, "os resultados da experiência destes três anos são claros: (i) os 6 mil milhões a menos que hoje temos no défice conduziram a 7,5 mil milhões a menos no PIB, ou seja, por cada euro retirado ao défice, tirou--se 1,25 euros ao PIB; (ii) os 6 mil milhões a menos no défice significaram 52 mil milhões a mais na dívida pública, ou seja, por cada euro retirado ao défice, a dívida aumentou 8,67 euros".

segunda-feira, 2 de setembro de 2013

Diarreia legislativa

Por Marinho e Pinto, no jornal «JN»

(...)«O sentimento de impunidade é tão grande que se chegou ao ponto de impedir o acesso aos tribunais do Estado, obrigando as pessoas a recorrerem às arbitragens, ou seja, a essa espécie de "tribunais" clandestinos em que os juízes são substituídos por advogados designados e pagos pelas partes e onde as decisões são em regra favoráveis a quem tem mais dinheiro. Esse tipo de "tribunais" é frequentemente utilizado como forma de legitimar as mais escandalosas negociatas público-privadas ou mesmo verdadeiros atos de corrupção. Sublinhe-se que, hoje, praticamente não há contratos do Estado com privados em que se não inclua uma cláusula arbitral com renúncia aos tribunais do Estado, obviamente, para não se correr o risco de algum magistrado mais diligente descobrir coisas inconvenientes. É preciso que os "juízes" sejam da confiança absoluta das partes. Tudo isto feito por uma ministra da Justiça que tem interesses diretos nesse tipo de negócios, já que é fundadora da Associação Portuguesa de Arbitragem. Só mesmo em Portugal é que isto fica impune».

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Até onde Portugal resiste?

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

O Portugal Democrático, mesmo com uma democracia esfarrapada e empobrecida, sobreviverá às políticas neoliberais e retrógradas que estão a ser impostas, como e por quanto tempo? Nos últimos dias, a partir de uma estimativa rápida (a ser revista) do Instituto Nacional de Estatística (INE) sobre a evolução do Produto Interno Bruto (PIB), desencadeou-se, pela enésima vez desde 2008, a ideia de que a recessão económica está a ser ultrapassada e que agora é que é: "estamos a sair da crise".
Até hoje todos os anúncios deste tipo, feitos a partir de indicadores conjunturais lidos parcelarmente e distanciados de uma abordagem sólida de tudo o que marca a situação da economia e das pessoas, apenas serviram para limitar os protestos populares, para secundarizar reflexões e propostas estruturadas, para o prosseguimento de políticas desastrosas que têm conduzido o país a uma situação cada vez pior. Desta vez, a ladainha de que vale a pena os sacrifícios e de que é preciso continuá-los e aprofundá-los foi de imediato retomada e está a servir a ofensiva contra os direitos dos trabalhadores e dos reformados, desde logo na Administração Pública, os ataques ao ensino público, ao sistema de segurança social e ao setor da saúde.
As previsões do INE mostram-nos que a ocasional interrupção da recessão, no último trimestre, foi talvez resultado de três causas: estarmos a ter um bom ano de turismo provocado por fatores externos e instabilidades em destinos alternativos; aumento pontual das exportações, designadamente, em resultado da entrada em funcionamento de uma unidade da Galp em Sines; impacto positivo das decisões do Tribunal Constitucional que evitaram algumas medidas de austeridade.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Almoços grátis?

Por A. Marinho e Pinto, no jornal «JN»

A atual maioria PSD /CDS prepara-se para reduzir em 10% os montantes de todas as pensões do setor público. A medida, que estará inserida no tão propalado corte de quatro mil milhões de euros nas despesas do Estado (montante posteriormente reduzido para dois mil milhões), constitui um ato brutal contra quem trabalhou e descontou durante o período da vida ativa e que, chegado à velhice, acaba sendo alvo de um verdadeiro assalto aos seus rendimentos. Não está só em causa o princípio republicano da solidariedade, um dos valores matriciais de qualquer República Democrática (cfr. Artigo 1.o da Constituição). O que esta maioria se prepara para fazer constitui a negação dos mais elementares princípios do direito. Com essa medida, o PSD e o CDS retiram a milhares de idosos as condições de dignidade para o fim das suas vidas, pois com esse corte muitos idosos terão de reduzir ou eliminar despesas pessoais absolutamente essenciais à sua existência, tais como alimentação e medicamentos. Mas, com tal medida, o PSD e o CDS violam também, de forma acintosa, o contrato de cidadania que o Estado havia celebrado com os seus servidores, mediante o qual estes teriam, no fim da sua carreira contributiva, direito a uma pensão proporcional às respetivas contribuições. O PSD e o CDS, chegados ao poder, não só violam todas as promessas eleitorais que lhes permitiram precisamente alcançar o poder, fazendo justamente aquilo que em campanha eleitoral garantiram que nunca fariam, mas violam ainda as mais basilares regras jurídicas, já que, com uma pusilanimidade estonteante, rasgam os contratos vitalícios que o Estado havia celebrado. Tudo sem qualquer culpa dos prejudicados, com a exceção, porventura, de terem permitido que pessoas sem palavra e sem honradez política chegassem ao poder.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Podem votar mas decidir não

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

O presidente da República (PR), na sua comunicação ao país na passada quarta-feira, entre contradições, excessos e insuficiências que preencheram o seu discurso, colocou aos portugueses um cenário de gestão da grave situação em que o país se encontra, que passa pela perspetiva de lhes conceder a possibilidade de usarem o seu voto em eleições a realizar no prazo aproximado de um ano, mas assegurando previamente que esse voto já não tenha capacidade de escolha.
Na conceção do PR, a realização de eleições daqui a um ano tem como pressuposto que os partidos do atual Governo, mais o Partido Socialista (PS), concluam previamente "um compromisso de salvação nacional", com alcance muito para além da data das eleições.
O Partido Comunista Português (PCP) e o Bloco de Esquerda (BE) são partidos que têm, como os outros, o direito e o dever de construir alternativas, de pretenderem ser maioria e de governarem. Ao excluí-los do cenário, que conteúdos de debate, que programas eleitorais e de Governo está o PR a propor aos portugueses como passíveis de escolha? Que conceção de democracia é esta? O que faria este PR se, até formal e institucionalmente, os portugueses lhe dissessem que discordam dele?
Nesta forma (democrática?), de inspiração presidencial, antes do exercício do voto já existiria um resultado garantido: um programa de governação na base do prolongamento da austeridade, com Portugal prosseguindo na sua condição de país ocupado.

segunda-feira, 8 de julho de 2013

Eleições e alternativa

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Acabe-se com o enxovalho! Não podem prosseguir as humilhações que vêm sendo feitas ao povo, à República Portuguesa, ao regime democrático que tanto sacrifício exigiu para ser conquistado. Quem não se dá ao respeito não é respeitado! Quem não assume a verdade dos factos com que lida sujeita-se a que outros o humilhem e o submetam, exatamente pelo conteúdo das mentiras.
O governo da Sr.ª Merkel afirmou há dois dias, sobre a situação política portuguesa, "o caminho é difícil mas é o único que garante o sucesso". Isto é um insulto ao povo português, só possível porque o nosso governo faz da mentira um instrumento de governação para subjugar a sociedade portuguesa.
De que sucesso fala esta gente?
Do empobrecimento generalizado, da destruição de empresas e do Estado Social, do brutal agravamento do desemprego, cujo número total de desempregados é hoje superior em mais de 330 mil às "previsões" da troika, da recessão económica que é umas quantas vezes maior do que aquilo que nos haviam dito que ia acontecer, da emigração forçada de milhares e milhares de jovens qualificados?
Deitemos mão das aprendizagens feitas no nosso longo e rico percurso histórico como povo e como nação, das nossas capacidades, recursos e valores. Discutamos com serenidade e seriedade os desafios e os sacrifícios a assumir, mas com a certeza de que é um futuro digno que encetamos.
O apodrecimento do governo PSD/CDS contamina perigosamente toda a sociedade, põe em causa os valores da política, da democracia, da soberania do país.

sexta-feira, 7 de junho de 2013

Um insulto

Por Carvalho da Silva, no jornal «JN»

Vi e revi o programa da Rádio Televisão Portuguesa (RTP) "Sexta às 9", emitido no passado dia 24 e senti-me indignado. Nele foi apresentada uma pretensa investigação sobre o sindicalismo na Administração Pública (AP) que, com tristeza, classifico de insulto ao sindicalismo e à democracia.
Tenho plena consciência do indispensável papel daquele canal público de televisão. A RTP vive tempos difíceis, sob fortes ataques e perante complexos desafios que merecem atos de solidariedade de todos os que defendem o regime democrático. Mas nem estes factos, nem o respeito profundo que tenho pelos seus jornalistas e outros profissionais me desviam da acusação àquele programa.
A dado passo e depois de referências a lutas sindicais em curso, designadamente a uma possível "paralisação geral da AP", afirmou-se: "No meio deste turbilhão contestatário, há uma realidade que nunca tinha sido investigada". Vê-se o programa e o que se descobre? A repetição, pela enésima vez, de que há dirigentes sindicais a mais na AP. Fazendo a contabilidade do total de dirigentes a tempo inteiro e atribuindo-lhes um salário bruto médio de 1500 euros (será?), concluem que custam "6,5 milhões de euros aos contribuintes". Este valor é idêntico ao que recebe meia dúzia de gestores de topo de grandes empresas - pessoas com mérito - que se alimentam de negócios chorudos com o Estado.

segunda-feira, 27 de maio de 2013

Espremam-se os velhos

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»


Espremam-se os velhos" - os de agora e os do futuro - parece ser a palavra de ordem do Governo, quando observamos as políticas que concretizam a nova vaga de austeridade.
Os cortes nas pensões e o aumento dos impostos e outros encargos sobre os reformados e pensionistas já vêm sendo efetuados desde o início das políticas de austeridade e empobrecimento, mas agora trata-se de um ataque muito direto e violento.
Tudo o que foi até aqui anunciado como conjuntural e passageiro fixa-se como definitivo e o futuro é fortemente constrangido.
A criação de emprego devidamente remunerado e com direitos, a valorização do tempo do não trabalho, de direitos sociais fundamentais que se universalizaram, a afirmação do Estado social, os avanços tecnológicos e científicos em múltiplas áreas e, desde logo, na medicina, contribuíram para essa conquista extraordinária do aumento da esperança de vida. Quando nas nossas sociedades há a justa expetativa de se viver mais anos e com mais saúde, este capitalismo neoliberal e selvagem impõe políticas que consideram tudo isto um luxo.
Em Portugal, a redução do valor médio das pensões vem sendo progressiva em resultado das reformas adotadas em 2001 e 2007 e, apesar do aumento de idosos que se projeta para o futuro, segundo um estudo da Comissão Europeia que o Governo cita no Documento de Estratégia Orçamental, o peso da despesa com pensões no PIB não deverá crescer mais que 0,2 pontos percentuais entre 2010 e 2060. Porquê, então, este ataque?

segunda-feira, 29 de abril de 2013

1.º de Maio: trabalho, liberdade, dignidade

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Marcos históricos na vida das nossas sociedades, como o 25 de Abril de 1974 ou o 1 de Maio, são vividos com a emoção que advém da memória dos grandes acontecimentos, ainda que não vividos, das conquistas de direitos e liberdades que sustentaram as nossas vidas enquanto trabalhadores, pessoas e cidadãos.
Em muitos portugueses e portuguesas hoje essa emoção tende a esbater-se perante a realidade vivida quotidianamente, perante os danos do austeritarismo que coloca mais de 20% dos trabalhadores portugueses no desemprego, que inferniza a vida no trabalho, na família e na sociedade, que condena à pobreza. A convivência com os nossos mais próximos amargura-nos a esperança de um futuro que faça jus às lutas do passado. Nuvens pesadas carregam a vida do nosso amigo, familiar ou vizinho; amanhã o que impede que seja a nossa?
Esta frustração e desânimo são inevitáveis perante as loucuras da avalanche de políticas ruinosas de um governo que traiu o povo e o país, perante a atuação do presidente da República que desgraçadamente sanciona essas políticas, perante instâncias europeias e internacionais que nos querem sugar até ao limite das nossas forças. Atiram-nos para um modo de viver que vorazmente abraça o imediato, o agora sem saída. Ora, dias como o 1.o de Maio, em que recordamos o que de melhor nos identifica como um povo, como projeto civilizacional, conferem fundo histórico à nossa existência.
Com Abril e Maio o que foi conseguido foi mais que a liberdade de expressão, de reunião, de organização sindical e política. Foi mais do que o direito a escolher livremente os governantes. Abril e Maio trouxeram muito mais. Trouxeram liberdade a sério: saúde, educação, habitação, dignidade no trabalho, cidadania, independência e soberania para os portugueses e para outros povos que a ditadura subjugava.

segunda-feira, 22 de abril de 2013

O consenso da desgraça

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

"Consenso" é a nova palavra mágica para a "salvação nacional". O ministro Poiares Maduro, académico chegado ao Governo há poucos dias, repetiu a palavra "consenso" 12 vezes na conferência de Imprensa da passada quinta-feira.
Passos Coelho é chamado pela troika e pelo presidente da República a reunir com o secretário-geral do Partido Socialista (PS) para procurar construir compromissos e consenso. Alguns grandes empresários e banqueiros, com Ricardo Salgado à cabeça afirmam, "com sentido de Estado", a necessidade de consenso. Ferreira de Oliveira, em defesa do consenso cita um grande poeta, para convocar a emergência da "ética da responsabilidade sobre a ideologia".
A RTP coloca a palavra consenso a encher o ecrã. Não há deputado "responsável" da Direita que não reclame consenso. Muitos dos principais programas das rádios e televisões debatem afanosamente o "necessário consenso".
Paulo Portas, em nome do consenso namora o Partido Socialista (PS), procurando engajá-lo para o imediato. E, com forte "sentido de Estado", defendendo "o interesse nacional", vai tentando assegurar presença no poder para o futuro. Algumas "personalidades" do PS respondem com encantamento, na perspetiva de poder estar ali a muleta para se guindarem à governação.
Aliás, no PS vária gente, incluindo ex-ministros de Sócrates - com discursos em contramão face ao que diz atualmente o seu ex-chefe - mostra gostar muito desse consenso. Uma sua ex-ministra defendia há dois dias, num programa de rádio, que é preciso "substituir a ideologia pelo pragmatismo". Acordem! Nós estamos mesmo perante grandes problemas. Não há soluções com as políticas que nos conduziram ao descalabro.
Os denominadores comuns e compromissos indispensáveis para construir respostas a uma situação dramática, como a que o país vive, exigem identificação e exposição de programas e valores. Há que confrontar as ideologias que marcam a vida e o funcionamento das sociedades.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

O que o país não merece

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Já poucos têm a coragem de chamar ajuda aos empréstimos da troika. Estes empréstimos significaram apenas uma nova dívida que serviu para pagar encargos e parte da dívida velha, tornando-a ainda maior. Foram presentes envenenados. A "ajuda" consubstanciou-se em brutal austeridade que deixou os portugueses mais pobres e em piores condições, até para poderem vir a pagar a dívida.
No fim de 2007 cerca de 70% da dívida pública portuguesa era detida por bancos e outros credores não residentes, isto é, externos. Em meados de 2012 os credores externos detinham já apenas cerca de 20%. Entretanto a dívida aos credores oficiais (Fundos da União Europeia, FMI e BCE) passou de zero para cerca de 40%. Isto significa, tão-somente, que quem nos "ajudou" se tornou no principal credor.

quinta-feira, 28 de março de 2013

O "fim de festa"

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Nos últimos tempos é bem visível um frenesim do Governo na implementação de contra-reformas em várias áreas. Assiste-se a um apodrecimento acelerado da governação que se mistura com expressões de desagregação da situação política, em resultado da imposição, no plano nacional e europeu, de políticas injustas, criminosas numa perspetiva de desenvolvimento das sociedades.
Tomo aqui o exemplo da atuação do ministro da Educação e Ciência, Nuno Crato. Quem acompanhou o seu percurso é conduzido a perguntar: este senhor ensandeceu?
Nesta semana disse, sorridente, que o exame do 4.º ano do Ensino Básico (antiga 4.ª classe), feito em outra escola, ou na sede do agrupamento escolar respetivo, com acompanhamento de professores desconhecidos, "não é pressão nenhuma" para as crianças. E acrescentou "qual o problema de um aluno estar numa escola e fazer uma prova noutra?".
Uma das recordações de maior sofrimento da minha infância é a da prestação de provas na 4.ª classe. Vêm-me à memória o medo do contexto em que estava, os nervos num espaço com imensos fatores desconhecidos. Levantar-me mais cedo para percorrer os quilómetros que distanciavam a escola da minha aldeia daquela onde fui fazer o exame, aqueles professores vistos por mim como "autoridade" nova e pretensamente mais exigente, o receio de falhar apesar de ser bom aluno, a incompatibilidade da roupa nova que os meus pais compraram para esse dia e as dores provocadas pelas botas novas depois da longa e demorada caminhada.
Esse tempo está longe, mas Crato, na sua modernidade, é para aí que nos quer encaminhar, ao colocar de novo os alunos num ambiente estranho e alheio ao do seu quotidiano, obrigando muitas crianças a grandes deslocações. Tenho uma filha, aluna numa excelente escola pública, que por certo fará o exame com êxito, mas revolta-me os pressupostos de que as crianças não dão importância e sentido de responsabilidade aos testes e provas do mesmo tipo que vão fazendo durante os anos e em particular neste, revolta-me a grande suspeita sobre a competência, a ética e a deontologia profissional dos docentes destes alunos, para além de constatar que a criação de todo um cenário bacoco, pretensamente ligado à evolução da qualidade do ensino e das aprendizagens, pouco ou nada terá de verdade. Será que isto é um pequeno contributo para no futuro se impor bem cedo um ensino dualista e elitista?
Ainda deste ministério veio, também estes dias, a confirmação de que os professores vão ser sujeitos à aplicação da mobilidade especial, facto que mostra que o ministro andou a mentir e que os professores vão ser indignamente tratados.

segunda-feira, 11 de março de 2013

Cegueira e insensatez

Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»

Passos Coelho ao afirmar, em plena Assembleia da República, que "aumentar o salário mínimo geraria mais desemprego neste momento", pôs a nu toda a dimensão de cegueira neoliberal, de incompetência e de disparate que marca o rumo e as práticas da sua governação. Mas é dramático que isto seja assumido como uma estratégia, confirmada, aliás, pelas afirmações de António Borges dois dias depois.
A brutal e injusta austeridade faz sofrer as pessoas, mas parece que também cega e estupidifica quem as impõe.
A afirmação do primeiro-ministro (PM) situa-se para além dos limites do bom senso e da decência política. É caso para lhe dizer: abre os olhos, obcecado! Não vês a queda da procura? Não vês a situação das empresas? Não vês a vida concreta das pessoas?
O problema de fundo é que estamos perante alguém que não cumpre os requisitos mínimos para se manter nas funções efetivas de primeiro-ministro de Portugal. Passos Coelho chegou a PM através de um ato eleitoral, isso é um facto, mas ele não governa de acordo com os compromissos que assumiu e não é um intérprete fiável dos interesses dos portugueses. Comporta-se simplesmente como executor das medidas que vão traçando os tecnocratas indigitados pelos nossos credores e agiotas (incluindo os Borges), com vista a explorar, até ao limite, o povo português.
Infelizmente, pelo menos três gerações de portugueses - aquelas que hoje sofrem com este desastroso rumo - vão dolorosamente lembrar-se por muito tempo deste roubo organizado, com dimensões externas e internas, feito ao seu país. E vão recordar-se das traições que estes governantes de ocasião e da mentira cometeram.