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quinta-feira, 3 de novembro de 2016

O desnorte

Por Henrique Custódio, no jornal «Avante!»

Há dias, Maria Luís Albuquerque tremelicava êxtases a anunciar que as «previsões do Governo» para o OE de 2017 «iam falhar», argumentando com nuns quadros que o PSD «tinha exigido», que só apareceriam «perto da meia-noite» e permitiriam à feliz deputada «prever» que as previsões governamentais iam falhar («prever previsões» só mesmo esta gente).
A originalidade desta geringonça fornecida por Maria Luís está no simbolismo: traduz o único projecto que move o PSD e o CDS – o de procurarem minar, a todo o custo, qualquer actividade governativa, sem preocupações pelas consequências para o povo e o País.
A novela em que se tornou a questão da Caixa Geral de Depósitos é disto uma evidência.
Em rigor, o PSD concorda com o Governo PS no pagamento milionário ao presidente da CGD, como uma longa prática governativa o atesta, com relevo para o executivo de Passos Coelho. O que o PSD de Passos pretende é desestabilizar o mais possível a situação da Caixa, impedindo a sua recapitalização e, se possível, a sua própria existência como banco público. Por trás da agremiação laranja pululam, como sempre, vastos e clandestinos interesses, onde a privatização do banco público tem lugar de destaque (aliás, em tempos aflorada por Passos Coelho).
PSD e CDS aproveitam qualquer incidente para desencadearem campanhas difamatórias, sem pudor nem escrúpulos e visando, sempre, o único objectivo que perseguem: o de criar obstáculos e problemas ao Governo.
O caso das demissões de dois assessores, apanhados a ostentar indevidamente licenciaturas que não possuíam, ilustra também esta sanha, com ambos os partidos de direita a rasgar as vestes de virgens ofendidas e ignorando o «escândalo Relvas» do seu rosário governativo, esse sim, um verdadeiro escândalo a arrastar-se durante meses e meses e a ficar na memória do País como o paradigma da desvergonha e do descaramento, bastando citar o «caso Relvas» para toda a gente saber do escândalo que ele representa.
E o argumentário que usam? Aí, a bambochata toma o freio nos dentes e galopa num desatino. Ora apontam o dedo aos aumentos modestos dados aos reformados, ora acusam de nada ter sido aumentado para, finalmente, considerarem os cortes nas pensões (que eles fizeram) mais agravados do que estavam. Uns dias (ou no mesmo discurso) acham que «o PS está refém dos aliados», enquanto o PCP é acusado de «estar a ceder» nos seus princípios, ora criticam a actual política governativa de estar a «levar Portugal para o desastre», ora acusam o «governo das esquerdas» de não estar a «cumprir o prometido».

O discurso é errático e sem preocupações de sustentação e a sanha em dizer mal é tão obsessiva, que denuncia um facto de relevo, na direita portuguesa: nela, o desnorte é flagrante.

quinta-feira, 25 de junho de 2015

Empate técnico

Por Filipe Diniz, no jornal «Avante!»

Não, este texto não é sobre a actual fase da estratégia das sondagens. Só aproveita a boleia.
Os documentos eleitorais até agora publicados pelo PS («Programa eleitoral») e PSD («Linhas de orientação geral para a elaboração do programa eleitoral») permitem constatar que continua a verificar-se um empate técnico entre os dois partidos que, com o CDS alternadamente atrelado, são os responsáveis pela política de direita no nosso País. Empate técnico na demagogia; na tentativa mútua de atribuir responsabilidades; na memória curta, que ambos esperam que os portugueses também tenham.
São textos de passa-culpas em alguns casos verdadeiramente surreais. O PS acusa o governo PSD/CDS de ter ido «muito além» do que era a agressão contra os trabalhadores e o povo contida no memorando da troika (que os três subscreveram). O PSD diz (p. 23) que «cumpriu sem falhas os compromissos que outros tinham assumido, o que condicionou largamente os rumos da governaçãoe não permitiu que concretizasse as suas ideias e projectos», ou seja, que PSD e CDS governaram segundo «as ideias e projectos» do PS o que, em geral, nem será completamente mentira.
Do mesmo modo que não diferem na desfaçatez. É de um lado o PS defendendo que não se esbanjem dinheiros públicos na «sistemática utilização de consultorias externas», é do outro o PSD defendendo um Estado de Direito «exclusivamente orientado pela defesa do interesse público», que «não transija com a corrupção e o compadrio». É o PSD defendendo «soluções que incrementem a participação cívica e a proximidade entre eleitores e eleitos», e é o PS defendendo «círculos uninominais, personalização dos mandatos e da responsabilização dos eleitos» «sem qualquer prejuízo do pluralismo».
Mais uma vez avança a engrenagem da falsa disputa entre PS e PSD/CDS. Mas se há coisa que o povo português deve comparar não é o que cada um deles agora promete. É o que cada um promete e o que fez quando esteve no governo, na longa e insuportável trajectória de quase quatro décadas de política de direita.

Não faltarão sondagens até às eleições. Até ao momento a única que é indesmentível é a da Marcha de 6 de Junho. É a única que sondou verdadeiramente a força do povo.