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quinta-feira, 11 de junho de 2015

O motim

Por Margarida Botelho, no jornal «Avante!»
Para comemorar o Dia Mundial da Criança, a Câmara Municipal de Portalegre programou diversas iniciativas envolvendo os meninos das escolas. Uma delas assumiu contornos de escândalo nas redes sociais: às crianças do pré-escolar coube simular um motim. Metade dos meninos eram polícias com escudos e capacetes, os outros eram manifestantes, a atirar «pedras» de papel aos polícias. A «iniciativa» teve o apoio oficial da PSP e, de acordo com as notícias publicadas, não é a primeira vez que organizam tal coisa.
Ao que parece, o objectivo da «iniciativa» era mostrar que a polícia protege e ajuda. Como é que se passa daí para a encenação de um motim com crianças de 5 anos, é que não se compreende. É difícil pensar num caso mais óbvio de manipulação ideológica de crianças: quem se manifesta é mau, nas manifestações atira-se pedras, a polícia bate, nós batemos no polícia.
As imagens são chocantes: meninos e meninas, com 6 anos no máximo, mascarados de polícia de intervenção, a bater noutros meninos de bibe. E depois vice-versa: batem os meninos de bibe nos mascarados de polícia.
A presidente da Câmara fez um esforço para passar a ideia de que isto é tudo normal. Mas não é. O papel da escola não é ensinar às crianças que quem participa num protesto é criminoso. E também não é ensinar a atirar «pedras», mesmo de papel, à polícia.
O que este caso revela é uma concepção da vida e do mundo em tudo oposta à Constituição da República e que há quem não hesite em passá-las às novas gerações, envolvendo até uma força policial.
Numa altura em que se discute a municipalização da educação, quase apetece dar este exemplo para provar por A + B que esse é um caminho errado, que abre portas à proliferação de disparates destes.

As crianças devem poder crescer a confiar que o polícia é alguém que os pode ajudar se tiverem um problema. Mas também têm o direito de crescer num país que estimula o direito à participação, que promove a democracia, que protege os mais frágeis.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Ao fim da tarde acontece...


A pouco mais de metro e meio de distância do local onde estou confortavelmente sentado, reparo que andam dois pardais em luta para debicarem o resto de uma codea de pão que por ali ficou. Para susto e decepção dos mesmos, eis que um pombo baixou de um beiral para disputar o mesmo manjar afugentando logo do local os pobres pardalitos. Situação esta que se altera com o aproximar de um rafeiro preto, de pequeno porte e coleira vermelha que, cheirando o resto do pão, vai junto ao poste mais perto alça a pata esquerda e marca aquele local com a sua passagem fazendo ali uma mijadela para, depois de aliviado, seguir em frente de cauda enrolada, na direcção indicada pelo seu GPS genético à procura de mais qualquer coisa.

Entretanto, olho o relógio; são 18 horas em Portalegre, estão 23 graus na Praça da República, as imperiais e os tremoços acabam de chegar à mesa…