Por Carvalho da Silva, no Jornal «JN»
O povo português, como outros povos europeus, vive submetido a processos de agiotagem cada vez mais refinados e, em Portugal, o conto do vigário tornou-se prática da governação económica e política. Os portugueses foram convidados a fazerem de conta que eram ricos e embalados em falsas festas de modernidade, autênticas cortinas de fumo que escondiam negociatas e fraudes monumentais. Depois, passaram a ser acusados de irresponsáveis e de terem andado a viver acima das suas possibilidades.
Mas quem foram ao longo dos anos os "irresponsáveis", ou seja, os verdadeiros responsáveis pelas dificuldades em que vivemos e pelas limitações em que hoje se nos apresenta o futuro?
O relatório do Tribunal de Contas sobre as parcerias público-privadas é mais uma peça que confirma os negócios ruinosos feitos por vários governos. Trata-se de um processo prenhe de ilegalidades, de enganos, de fraudes e vigarices feitas sobre a riqueza e o interesse de todo um povo.
As promessas do primeiro-ministro de repor a legalidade nesses negócios não têm concretização possível, por duas razões: primeiro, o problema fundamental é a génese subversiva desse tipo de parceria; segundo, o Governo está de corpo e alma nos pressupostos políticos e nos objetivos económicos que sustentam essas parcerias. O problema só será resolvido quando tivermos um Governo identificado com os interesses do povo e não com os interesses egoístas dos grandes acionistas da banca e dos grupos económicos.
A trapalhada em que está envolvido o ministro Relvas é outra expressão das manipulações e atuações antidemocráticas. A insistência no distanciamento do ministro em relação a um dos "operários" das jogadas chantagistas com que estes processos se desenvolvem e os argumentos "legalistas" e formais que o primeiro-ministro, o Governo, os partidos do poder e outra gente do centrão político vão repetir, só agravarão a situação. O povo ficará mais descrente no Governo e nas instituições. Acumulam-se assim graves riscos para a democracia.